Sobre a Inveja e o Ciúme

inveja e o ciúmeTrecho do livro Felicidade – A prática do Bem Estar de Matthieu Ricard, extraído do Portal do Budismo. |
 
Estranho sofrimento, a inveja. Sentimos inveja da felicidade que os outros têm certamente, não da sua infelicidade. Isso não é ridículo? Não seria natural desejar a felicidade dos outros? Porque sentir desconforto quando as pessoas à nossa volta estão felizes? Por que sentir despeito das boas qualidades que têm? O oposto da inveja é regozijar-se com todas as alegrias, pequenas ou grandes, que os outros vivenciam. Dessa maneira, a felicidade deles se torna nossa também.

A inveja não tem o lado atraente do desejo, não vem disfarçada de justiceira como a raiva, não se enfeita com ornamentos sombrios como o orgulho e nem mesmo é preguiçosa como a ignorância. Não importa sob que luz seja examinada, sempre surge como algo detestável. Eis o retrato que Voltaire faz dela:

A sombria Inveja, de tons pálidos, lívida,

Seguindo, cambaleante, a Suspeita que a guia.

Há diversos graus de inveja e ciúme, uma vasta gama que vai de uma leve inveja à fúria cega e destrutiva. Existe a inveja branda, cotidiana, que se destila em pensamentos semiconscientes e emerge em comentários depreciativos. É uma inveja que se traduz em uma leve maldade contra um colega que vai melhor do que nós, ou em cáusticas reflexões sobre um amigo para quem a sorte sempre parece sorrir. A essa inveja leve se opõe a obsessão sempre repetitiva, que explode às vezes em um acesso de fúria incontrolável, quando ocorre uma infidelidade, ou um rival recebe uma distinção que esperávamos para nós. A inveja e o ciúme derivam da incapacidade fundamental de se regozijar com a felicidade ou o sucesso do outro. O homem ciumento ensaia o insulto na sua mente, esfregando sal na ferida muitas e muitas vezes, fazendo com que seja impossível ser feliz naquele momento.

Em qualquer caso, a inveja é produto de uma ferida no nosso ego, na nossa auto-importância, não passando, portanto, de uma ilusão. Mais ainda, a inveja e o ciúme são um contra-senso para aquele que os sente. Pois, ao não ser que se recorra à violência, a única vítima desses sentimentos é aquele que os alimenta. A sua fúria e o seu ressentimento não evitam que o alvo da inveja desfrute sucesso, riqueza ou distinção.

Precisamos considerar o seguinte: o que a felicidade dos outros pode realmente tirar de nós? Nada, é claro. Só o ego fica ferido com ela e a sente como uma dor. É ele que não suporta o bem-estar alheio quando estamos deprimidos ou a saúde alheia quando estamos doentes. Por que não tomar a alegria dos outros como uma fonte de inspiração, um exemplo vivo de felicidade realizada, em vez de fazer dela motivo de aborrecimento e frustração?

E quanto ao ciúme que surge de um sentimento de injustiça ou traição? Ser enganado por alguém com quem temos uma ligação profunda parte o nosso coração, mas, de novo, o responsável por esse sofrimento devastador é o amor a si mesmo. La Rouchefoucauld observa nas suas “Máximas” que “no ciúme há mais amor-próprio do que amor”.

Uma amiga confidenciou-me recentemente: “A infidelidade do meu marido magoa-me no mais íntimo e profundo de mim mesma. Não posso suportar a ideia de que ele seja mais feliz com outra mulher. Fico me fazendo a mesma pergunta, sem cessar: ‘Por que não eu? O que ele encontra nela que eu não tenho?’”



 
Mesmo sendo difícil manter a imparcialidade em tais circunstâncias, quem cria essa dificuldade senão o ego? O medo do abandono e o sentimento de insegurança estão intimamente ligados à falta de liberdade interior. A preocupação consigo mesmo, a absorção em sim mesmo – com o seu inseparável cortejo de medo e esperança, atração e rejeição – é a maior inimiga da paz interior. Se não, o que impediria de nos regozijarmos ao ver uma pessoa amada encontrar mais felicidade com o outro qualquer? Não é uma tarefa fácil, mas se realmente queremos que a outra pessoa seja feliz, não podemos definir a maneira como ele deve agir para conseguí-lo. Só o ego tem a audácia de afirmar: “A sua felicidade depende da minha”. Como escreveu Swami Prajnanpad: “Quando você ama alguém, não pode esperar que essa pessoa faça as coisas de maneira que lhe agrada. Isso seria o equivalente a amar a si mesmo”.

Se conseguíssemos pensar com clareza, ainda que remotamente, deveríamos ter a coragem de tentar abster-nos de reforçar as imagens mentais que nos torturam, bem como a obsessão que nos faz sonhar com cruéis represálias contra aquele ou aquela que “usurpou” a pessoa de quem sentimos ciúme. Essas imagens e essa obsessão se devem inteiramente ao fato de termos nos esquecido do nosso potencial interior para a paz e a ternura. Uma pessoa que está em paz pode compartilhar a sua felicidade, mas não encontra utilidade alguma no ciúme. Útil será gerar empatia e amor altruísta por todas as pessoas, inclusive os nossos rivais. Esse antídoto curará a ferida e a seu tempo a inveja e o ciúme desaparecerão, como um sonho ruim.
 

Compartilhar: