Lemos o mundo de maneira errada e dizemos que ele nos engana

mundo por Matthieu Ricard |
 
No Budismo, a palavra “realidade” significa a natureza verdadeira das coisas, não modificada por construções mentais sobrepostas a elas. Conceitos fabricados abrem um intervalo entre nossa percepção e a realidade, e criam um conflito sem fim com o mundo.

“Lemos o mundo de maneira errada e dizemos que ele nos engana”, escreveu Rabindranath Tagore. Tomamos como permanente aquilo que é efêmero e, como felicidade aquilo que nada é além de uma fonte de sofrimento: o desejo por bens, poder, fama e prazeres enganosos.

Compreender a realidade é uma característica da sabedoria. Isso não acarreta o domínio de grandes massas de informação, mas uma compreensão da natureza verdadeira das coisas. Por hábito, percebemos o mundo exterior como um conjunto de entidades distintas e autônomas às quais atribuímos características que acreditamos serem inerentes a elas.

Nossa vivência do dia-a-dia nos diz que as coisas são boas ou ruins, desejáveis ou indesejáveis. O “eu” que as percebe parece ser igualmente concreto e real. Esse erro, que o budismo chama de ignorância, faz surgir poderosos impulsos de atração ou aversão, que uma hora levam ao sofrimento.

Mudar o modo de ver o mundo não é ter um otimismo ingênuo ou uma euforia artificial com intenção de contrabalançar a adversidade. Enquanto formos escravos da insatisfação e da frustração que surgem da desordem que domina a nossa mente, será tão inútil dizer a si mesmo “Sou feliz! Sou feliz!”, muitas e muitas vezes, quanto seria repintar um muro em ruínas.

Buscar a felicidade não é olhar para a vida através de óculos cor-de-rosa ou cegar-se para a dor e as imperfeições do mundo. Nem é a felicidade, tampouco, um estado de exaltação que deva ser perpetuado a qualquer custo; mas, sim, um processo de purgar as toxinas mentais, como o ódio e a obsessão, que envenenam a mente. É também aprender como colocar as coisas em perspectiva e reduzir a distância entre as aparências e a realidade.

Para esse fim, devemos adquirir um conhecimento melhor sobre como a mente funciona e ter uma percepção mais precisa sobre a natureza das coisas, pois, no sentido mais profundo, o sofrimento está intimamente ligado a um mal-entendido sobre a natureza da realidade.
 

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