A realidade através das ilusões

ilusões

O tempo e a mente são inseparáveis. — Eckhart Tolle

Quando se diz que é preciso se libertar da mente, na verdade o que se pretende dizer é que deve se libertar das limitações que são a mente. A consciência contém o Todo e a parte. Mesmo que se considere as partes como sendo ilusões ainda assim elas, de certa forma existem, e devem ser reintegradas. Seja qual for a coisa ou condição, real ou ilusória, são partes da mesma Consciência.

Na verdade não é a mente que contém as ilusões, mas sim estas que contêm a mente, ou melhor, constituem a mente. A Consciência deve se dar conta das manifestações da mente para que ela – o Ser – não seja dominado. Por ser um tanto difícil a compreensão do que estamos dizendo, por se tratar de algo muito abstrato, então vamos usar como analogia a parábola “O Elefante e o Marajá”. Ela pode ser muito útil para o entendimento da relação entre mente e consciência:

“Visando divertir um Marajá visitante foi mandado apresentar um elefante a vários cegos, mas de forma que a cada um fosse mostrado apenas uma parte distinta, e não o animal como um todo. Depois, na presença do Marajá foi mandado que cada um dos cegos descrevesse o que era o elefante. A confusão foi tremenda e terminou em luta corporal quando cada um descreveu o animal. Aquele a quem haviam mostrado apenas a pata como sendo o elefante o descreveu de uma forma; ao que haviam mostrado a tromba, de outra; ao que havia haviam mostrado apenas a orelha, de outra”.

A luta aconteceu porque não pôde haver concordância entre os cegos à respeito do que era o elefante, cada um tinha uma ideia diferente conforme o que havia percebido e consequentemente entendido. Neste conto vale a indagação: qual a realidade e qual a ilusão? – É fácil notar que a realidade era o elefante como um todo, enquanto que as partes eram ilusões de ser o elefante. Porém, vale salientar que as partes, mesmo sendo consideradas como ilusões, ainda não deixavam de ser o elefante.

Nesse exemplo o elefante pode ser comparado à consciência e as partes como as ilusões pertencentes à um contexto que chamamos de mente. Para eliminar a luta dos cegos não seria necessário destruir as partes, mas fazer cada um entender que estava sob a ação de Maya (ilusão de separação). Para libertá-los, primeiro seria preciso admitir que a ideia que tinham do elefante estava incompleta. Esse conto pode ser aplicado aos seres humanos; as pessoas correspondem aos cegos que não percebendo o Todo da Consciência, acreditam em frações. Dizer que a tromba seja a realidade de um elefante é mera ilusão, assim também dizer que as percepções que se tem são verdadeiras no tocante à realidade plena.

Os seres não percebem o Todo – Consciência – mas somente as partes – mente. Para chegar a perceber a realidade, é preciso entender que aquilo que é percebido, tanto objetiva quanto subjetivamente, é apenas parte da consciência filtrada pela mente. Aqueles cegos estavam presos à ilusão e realmente não era fácil pra qualquer um deles admitir que o outro tivesse razão. A razão de um não comporta a do outro e muito menos a de todos eles compondo a realidade plena. Somente cientificando-se da verdade, o que implicaria no sentir que sua concepção era apenas uma parte de algo distinto, seria a forma de se libertar de ter a certeza de viver na ilusão e de ser ela a verdade. Baseado nisto, podemos dizer que o Ser a fim de se libertar necessita recordar sua real natureza, ou seja, se tornar um recordado e então perceber como consciência e não como mente.

As ilusões que integram a mente são partes da consciência, assim podemos dizer que a mente só se manifesta dinamicamente, quando em atividade. As partes do elefante só se manifestaram como algo independente, quando foram “ativadas” pelos cegos. Fora disto elas apenas existiam no elefante. Há correspondência entre isto e a mente. Para existir como algo independente da Consciência, a mente procura sempre negá-la para substituí-la e continuar no comando. Por esta razão é que há tanto empenho para manter a ilusão como verdade, para conservar a qualquer custo as ilusões que lhes dão sustentação. Acontece como se as partes do elefante, para continuarem a ocupar o lugar dele como um todo, procurasse de todas as formas preservarem tudo aquilo que lhe servisse de sustentação, até mesmo os próprios cegos. Fizessem tudo para que estes não passassem a enxergar. Pois a partir do momentos que eles viessem a enxergar, a partes desmoronariam como todo, cada uma continuaria existindo no elefante, mas não mais como sendo este em sua plenitude.

Assim, para um dos cegos sentir que a parte não era o elefante não seria preciso destruir a parte e sim, de alguma maneira, cientificá-lo disto, de forma a não deixar dúvidas. Veja-se que destruir as partes acabaria por destruir o próprio elefante. Uma parte apenas que fosse destruída já não se poderia perceber o elefante completo. O mesmo se pode dizer quanto à mente. Não é destruindo a mente que se liberta o Ser, mas fazendo-o entender a verdade que as ilusões são meras partes, e não a totalidade. Destruir as ilusões, destruir a mente, é o mesmo que destruir a própria Consciência. Consciência é infinito, onde nada pode ser adicionado nem tirado.



 
O objetivo mais elevado da Senda Mística é ensinar os meios da pessoa se libertar da mente, não tentando destruí-la, por ser isto impossível, mas compreendendo os modos que ela se impõe e não deixar que isto o aprisione. Não vale tentar destruir o dominador, mas sim os elos que mantém o prisioneiro. Em outras palavras, conviver com a mente sem se identificar com ela, pois a destruição seria o mesmo que a eliminação da Consciência. Logicamente uma condição impossível para qualquer Ser. Se viesse acontecer ocorreria a volta à Inefabilidade.

Não dizemos que mente e Consciência sejam polaridades, mas para o nosso entendimento pode ser assim aceito. Não é possível se destruir um pólo sem que se destrua o outro, desde que ambos são aspectos de uma mesma coisa. É preciso entender os laços que mantém o Ser distanciado da Consciência Plena. Desfeito todos os elos, o Ser estará livre sendo então apenas Consciência Pura.

(Artigo originalmente escrito por José Laércio do Egito | Revisado por Despertar Coletivo)
 

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